Quando centenas de mãos se encontram, a natureza também abraça de volta
Não foi apenas um abraço: Em sua segunda coluna ao Surfemais, Gladis Helena brinda os leitores com uma crônica sobre o ‘Abraço Simbólico’ que aconteceu na praia do Rosa, em Imbituba, no último domingo (12), e que levou cerca de 300 pessoas a se preocuparem com o futuro da Área de Proteção Ambiental (APA) da Baleia Franca
Quem olhou de longe viu pessoas de mãos dadas na areia da Praia do Rosa Sul, em Imbituba (SC). Quem esteve ali talvez tenha visto uma manifestação. Alguns enxergaram uma pauta ambiental. Outros, um posicionamento político.
Mas havia algo maior acontecendo.
Porque, às vezes, um abraço não serve para cercar. Serve para lembrar.
Lembrar que a Terra nunca precisou de nós para existir. Somos nós que precisamos dela.
Durante muito tempo aprendemos a olhar a natureza como um recurso. Como algo disponível para ser explorado, dividido, transformado em números, escrituras, metros quadrados e mapas. Quase nunca aprendemos a vê-la como extensão da nossa própria existência.
Talvez seja justamente aí que comece o desafio do nosso tempo.
Não estamos discutindo apenas uma área de proteção ambiental. Estamos discutindo a maneira como escolhemos caminhar sobre este planeta.
A baleia-franca não sabe o que é um projeto de lei.
As dunas desconhecem disputas ideológicas.
Os pássaros não distinguem direita e esquerda.
O mar não pergunta em quem votamos.
A natureza apenas responde às escolhas que fazemos.
Quando cuidamos, ela floresce.
Quando destruímos, ela devolve exatamente aquilo que recebeu.
É uma lei silenciosa, antiga e inevitável.
Talvez por isso o abraço realizado na Praia do Rosa tenha emocionado tantas pessoas.
Porque, por alguns instantes, ninguém estava ali para vencer uma discussão. Estavam ali para lembrar que pertencemos ao mesmo lugar.
Em um mundo acostumado a levantar muros, centenas de pessoas escolheram formar uma corrente.
Em tempos de gritos, escolheram o silêncio respeitoso.
Em meio às divergências, escolheram dar as mãos.
Existe uma sabedoria ancestral nesse gesto.
Os povos originários sempre ensinaram que a Terra não é uma herança recebida dos nossos pais. É um empréstimo feito pelos nossos filhos.
Essa ideia muda tudo.
Ela nos convida a abandonar a lógica da posse e abraçar a lógica do cuidado.
Talvez a verdadeira evolução da humanidade não esteja nas máquinas mais inteligentes, nos edifícios mais altos ou na velocidade da tecnologia.
Talvez ela comece quando entendermos que progresso não é conquistar a natureza.
É aprender a conviver com ela.
Todos nós estamos apenas de passagem.
Nenhum cargo permanece.
Nenhum patrimônio atravessa o tempo.
Nenhuma disputa política resiste aos séculos.
Mas uma floresta preservada pode atravessar gerações.
Uma lagoa limpa pode matar a sede de quem ainda nem nasceu.
Uma baleia protegida continuará voltando todos os invernos para lembrar que a vida sempre encontra um caminho quando existe respeito.
A fé, muitas vezes, é confundida com aquilo que acontece dentro dos templos.
Talvez ela também aconteça quando alguém planta uma árvore sem saber quem descansará sob sua sombra.
Quando um pescador respeita o tempo do mar.
Quando um artesão transforma matéria em beleza.
Quando uma criança aprende que uma concha na areia vale mais do que um pedaço de plástico.
Ou quando centenas de desconhecidos escolhem dar as mãos para dizer, sem violência e sem ódio, que acreditam na vida.
No fim das contas, é disso que somos feitos.
Não apenas de carne e osso.
Somos feitos das escolhas que deixamos florescer.
Cada gesto de cuidado é uma semente.
Cada palavra de esperança é uma semente.
Cada atitude consciente é uma semente.
E sementes nunca perguntam quem receberá os aplausos.
Elas simplesmente cumprem sua missão.
Caem na terra.
Desaparecem por um tempo.
E, silenciosamente, transformam o mundo.
Porque há mudanças que começam com discursos.
Outras começam com leis.
Mas as mais profundas…
Começam quando um coração desperta.
